Para ler enquanto o dia ainda escolhe um caminho.

A porta lateral do Mercado Central está aberta antes do fluxo engrossar. O chão ainda guarda marcas da lavagem da manhã. A água escorre devagar em direção ao ralo e some entre as pedras antigas.

Perto da entrada, alguém prende o cabelo para aliviar o calor que começa cedo. O elástico é girado uma vez a mais e aperta demais. É solto e preso de novo, com menos força. Um frasco pequeno sai da bolsa. A tampa gira. Um pouco de produto é espalhado nas mãos e passa rápido pelos fios. O gesto termina antes de procurar um espelho.

As bancas levantam as portas de metal aos poucos. O som ecoa pelo corredor longo. Um vendedor borrifa água nas folhas verdes para manter o frescor. As gotas respingam no braço de quem passa e escorrem até o pulso.

Um copo de caldo é servido ainda quente demais. A borda queima leve. O copo é apoiado no balcão por alguns segundos antes do primeiro gole. O vapor sobe e se mistura com cheiros de fruta, tempero e café passado na hora.

Alguém caminha sem lista nas mãos. Para numa banca, depois em outra. Toca uma peça, devolve ao lugar. O passo não acelera. Um pano passa pelo balcão e volta para o ombro de quem limpa.

No corredor central, a luz entra pelas frestas do teto alto. A água que sobrou da limpeza reflete o movimento das pessoas. Um pé passa devagar para não escorregar. Outro pisa sem cuidado e segue.

O cabelo preso começa a soltar um fio. A mão leva até ele e ajeita sem pressa. O frasco volta para a bolsa, agora em outro bolso. A alça é ajustada no ombro.

Uma banca oferece prova. O copo pequeno é aceito. Um gole curto. Depois outro. A pessoa agradece e continua andando. Ninguém chama de volta.

O corredor segue aberto para os dois lados. Mais gente entra. Outras saem. A água no chão seca em partes irregulares.

Alguém para no meio do caminho, observa as bancas à frente e decide seguir sem escolher ainda. O passo retoma no mesmo ritmo.

Crônica da Vê

Vê de Verdade