Para ler enquanto a água ainda escorre.
O chuveiro é aberto e fechado duas vezes até a temperatura parar de variar. A água cai firme. O ralo demora a engolir tudo. Um frasco é alcançado às cegas. As mãos espalham rápido. A espuma desce pelos braços e desaparece.
Do lado de fora do box, uma toalha espera dobrada pela metade. O vapor encosta no espelho e apaga o contorno do rosto. Um fio de cabelo gruda na parede de azulejo e fica ali, preso pela água.
A porta do banheiro range leve. Alguém entra e para perto da pia. A torneira é aberta só o suficiente para molhar as mãos. O som mistura com o do chuveiro. O sabonete é espalhado na esponja.
O enxágue demora mais do que o previsto. A água corre pela nuca e escorre pelas costas. O ralo volta a reclamar. O pé empurra a tampa uma vez. Funciona. A água baixa.
A toalha é puxada e envolve o corpo ainda molhado. O tecido absorve devagar. Um frasco é fechado e colocado de volta no mesmo lugar. A tampa gira até travar. O vapor começa a subir de novo.
Na pia, alguém passa água no rosto e seca com a toalha pequena. Um elástico é colocado no pulso e esquecido ali. O espelho começa a clarear aos poucos, primeiro nas bordas.
A porta do box se abre. O chão recebe gotas que se espalham pelo porcelanato. Uma delas alcança o pé de quem espera. Ninguém recua. A toalha é ajustada uma vez. Depois outra.
O chuveiro é desligado. O silêncio entra no espaço. O vapor ainda fica.
A toalha é pendurada no gancho mais próximo. O elástico é pego do pulso e esticado entre os dedos. O espelho agora devolve imagens incompletas.
A porta permanece aberta.
Crônica da Vê
