Para ler enquanto a chuva decide se passa.

A marquise pinga sem ritmo. A água escorre pela lateral e cai perto do meio-fio. Alguém sacode o guarda-chuva duas vezes antes de fechá-lo. O tecido ainda goteja.

Um cabelo preso às pressas começa a soltar. A mão tenta ajeitar sem espelho. Um frasco pequeno sai do bolso do casaco. A tampa gira. O produto é espalhado rápido entre as palmas e some nos fios ainda úmidos da chuva recente.

O painel do terminal pisca atrasos. Um ônibus encosta e sai quase vazio. Outro chega cheio demais. As pessoas se reorganizam em filas que duram pouco.

Perto do banco de metal, alguém seca o rosto com a manga da camiseta. A água deixa marcas mais escuras no tecido. Uma toalha pequena aparece da mochila e volta para dentro, dobrada de qualquer jeito.

Dois estranhos dividem o mesmo abrigo. Um deles dá um passo para o lado para evitar um respingo maior. O outro faz o mesmo. O espaço diminui e se recompõe. A chuva bate mais forte por alguns segundos e depois cede.

O cheiro leve de produto mistura com o de asfalto molhado. Um fio cai sobre a testa e é empurrado para trás com o polegar. O elástico estica e ameaça ceder. Não cede.

Um ônibus anuncia a linha com voz metálica. As portas se abrem. A fila anda e trava. Um pé pisa numa poça rasa e espalha água para os lados. Alguém ri curto e para.

Os dois chegam à porta ao mesmo tempo. Um espera. O outro entra. As portas ainda não fecham. A chuva diminui sem aviso.

O motorista olha pelo retrovisor. O aviso sonoro não começa.

Crônica da Vê

Vê de Verdade