Para ler enquanto alguém ainda não chegou.

A porta é aberta sem fazer barulho. Os sapatos são deixados alinhados perto da parede. A janela da sala é destravada para o ar circular. A luz entra limpa, sem esforço.

Na cozinha, a pia está seca. Um pano passa pela bancada uma vez. Depois outra. Um copo é colocado de cabeça para baixo. A torneira é aberta só para molhar as mãos e fechada antes do respingo maior. O som da água some rápido.

No quarto, a cama é esticada pelas pontas. O lençol demora a ceder num dos lados. É ajustado com mais cuidado. Dois travesseiros são batidos e colocados no mesmo sentido. Um fio de cabelo esquecido no tecido é retirado com os dedos e jogado fora.

No banheiro, as toalhas são trocadas. Uma vai para o cesto. Outra, ainda dobrada, é pendurada no gancho mais alto. O tapete é alinhado com o pé. Um frasco é limpo com a palma da mão e colocado de volta no lugar, rótulo voltado para dentro. O box ainda guarda marcas do último banho. Um pano passa pelo vidro e deixa o espaço mais claro.

A água do chuveiro é aberta por alguns segundos. Teste rápido. A temperatura é ajustada e fechada de novo. O vapor não chega a se formar. Um sabonete novo é deixado sobre a pia. A embalagem é retirada e dobrada em quatro antes de ir para o lixo.

Na sala, o sofá recebe uma manta dobrada pela metade. Um controle é alinhado com o outro. A mesa de centro fica livre. Um copo com água é deixado ali, ainda com pequenas gotas escorrendo pela lateral.

O cabelo é preso rápido, só para não cair no rosto. Um frasco pequeno é aberto. Um pump cede uma vez. As mãos espalham o produto e o cheiro discreto fica no ar por alguns segundos antes de se diluir.

A porta do apartamento ao lado fecha. O elevador sobe. Passos se aproximam no corredor. O porcelanato reflete a luz do fim de tarde.

A luz da sala permanece acesa. O copo ainda está frio. A porta de entrada continua destrancada.

Crônica da Vê

Vê de Verdade