Para ler enquanto as luzes ainda não apagam.
O saguão do cinema está frio demais. Um copo com água passa de uma mão para outra e volta pela metade. A tampa é ajustada com o polegar. Uma gota escorre pelo plástico e some no carpete escuro.
Perto do espelho da parede lateral, alguém prende o cabelo de novo. O elástico escapa na primeira tentativa. Na segunda, segura. Um frasco pequeno sai do bolso do casaco. A tampa gira sem barulho. O produto é espalhado rápido entre as mãos e passa pelos fios, sem procurar reflexo.
Os ingressos são conferidos no celular. A tela ilumina os rostos por um segundo e se apaga. A fila anda devagar. Um aviso pede silêncio antes mesmo de entrar na sala.
Dentro, o corredor estreito obriga a passar de lado. Um pede licença baixo. O outro recolhe os joelhos para abrir espaço. As mãos quase se tocam no escuro. O contato não acontece. As cadeiras rangem quando alguém se acomoda.
A sessão ainda não começou. Um anúncio se repete. O som vem alto demais. Um copo é colocado no porta-objeto e retirado logo depois. O gelo bate uma vez e para.
O cabelo solta um fio com o movimento de sentar. A mão leva até ele e ajeita sem pressa. O cheiro leve de produto mistura com o de pipoca quente. O ar condicionado sopra direto por alguns segundos e depois muda de direção.
As luzes diminuem. A tela fica preta. Um trailer começa e é interrompido por outro. O tempo se alonga antes do filme.
No escuro, um braço procura o apoio e encontra outro. Os dois ajustam ao mesmo tempo. O espaço se rearranja sem palavra alguma.
As luzes ainda não apagaram por completo.
Crônica da Vê
Vê de Verdade
